Grana Investimentos

01

Por que diversificar internacionalmente

Uma carteira 100% em ativos brasileiros está concentrada em uma única economia, uma única moeda e um único ciclo político. Diversificar internacionalmente não é fugir do Brasil — é reconhecer que o mundo tem centenas de empresas, setores e dinâmicas que não existem aqui.

O Brasil representa menos de 2% do PIB global. Uma carteira inteiramente doméstica ignora 98% das oportunidades de investimento do planeta. Mais do que retorno, a diversificação internacional reduz o risco específico do Brasil — crises políticas, desvalorização cambial, ciclos de juros extremos — sem necessariamente abrir mão de rentabilidade.

O dólar funciona como uma proteção natural em momentos de crise. Quando a economia brasileira piora, o real tende a se desvalorizar e os ativos dolarizados sobem em reais — o que protege o poder de compra e o patrimônio total da carteira.

<2%
participação do Brasil no PIB global — carteira 100% BR ignora o resto
~500
empresas no S&P 500, índice das maiores companhias americanas
1.600+
empresas no MSCI World, índice de ações de países desenvolvidos
20–40%
alocação internacional recomendada para carteiras de longo prazo

"Diversificar internacionalmente não é especulação com dólar. É construir uma carteira que não dependa exclusivamente de um único país para crescer."

Rafa Kozoski — Grana Investimentos

02

As quatro formas de acessar o exterior

O investidor brasileiro tem quatro caminhos principais para ter exposição a ativos internacionais. Cada um tem nível diferente de complexidade, custo, tributação e acesso a produtos.

Opção 01

BDRs na B3

Certificados de ações e ETFs estrangeiros negociados em reais diretamente na bolsa brasileira.

+Sem burocracia cambial   +Em reais   +Liquidez D+2

Opção 02

ETFs internacionais na B3

Fundos de índices globais listados na bolsa brasileira, como IVVB11 (S&P 500) e WRLD11 (MSCI World).

+Diversificação automática   +Baixo custo   +Em reais

Opção 03

Fundos cambiais e internacionais

Fundos de investimento brasileiros com gestão em ativos internacionais ou com exposição cambial ao dólar.

+Gestão profissional   -Taxas mais altas   -Come-cotas

Opção 04

Conta em corretora no exterior

Conta em corretoras como Interactive Brokers, Avenue ou Nomad. Acesso direto a ações, ETFs e outros ativos em dólar.

+Maior variedade   +Patrimônio em dólar   -Declaração IRPF complexa

Para a maioria dos investidores brasileiros que estão começando a diversificar internacionalmente, ETFs internacionais listados na B3 oferecem o melhor equilíbrio entre simplicidade, custo e diversificação. BDRs individuais fazem sentido para quem quer exposição específica a empresas como Apple, Amazon ou Microsoft. Contas no exterior fazem sentido para patrimônios maiores e investidores que querem de fato manter ativos fora do país.


03

O que são BDRs e como funcionam

BDR (Brazilian Depositary Receipt) é um certificado negociado na B3 que representa um ativo estrangeiro — ação de empresa ou cota de ETF internacional. O investidor compra em reais na bolsa brasileira e tem exposição ao desempenho do ativo original no exterior, incluindo a variação cambial.

O mecanismo funciona assim: uma instituição depositária (como o Banco Bradesco ou Citibank) compra os ativos originais no mercado estrangeiro e emite certificados correspondentes na B3. Cada BDR representa uma fração do ativo original — AAPL34, por exemplo, representa ações da Apple; IVVB11 representa cotas do ETF iShares Core S&P 500.

Tipos de BDR

Tipo Descrição Acesso
BDR Patrocinado Nível I Emitido com participação da empresa estrangeira. Pode ser negociado apenas por investidores qualificados (acima de R$ 1 milhão em investimentos). Qualificado
BDR Patrocinado Níveis II e III Empresa estrangeira se registra na CVM. Acesso para todos os investidores. Mais transparência e governança. Todos
BDR Não Patrocinado Emitido por banco depositário sem participação da empresa. Disponível para todos os investidores desde 2020. Todos
BDR de ETF Representa cotas de ETFs estrangeiros — a forma mais diversificada de BDR. Exemplos: IVVB11 (S&P 500), HASH11 (cripto). Todos

BDRs desde 2020 estão abertos a todos

Até outubro de 2020, BDRs não patrocinados eram restritos a investidores qualificados. A mudança regulatória da CVM abriu o acesso para qualquer investidor pessoa física, tornando possível comprar BDRs de empresas como Apple, Google, Amazon e Tesla diretamente pela corretora com poucos reais.


04

ETFs internacionais: índices globais na B3

ETFs internacionais listados na B3 são a forma mais eficiente e diversificada de acessar mercados globais sem sair do Brasil. Com uma única compra, o investidor tem exposição a centenas ou milhares de empresas em vários países.

IVVB11

S&P 500 (EUA)

500 maiores empresas americanas. O ETF mais negociado de exposição ao mercado americano no Brasil.

WRLD11

MSCI World

Mais de 1.600 ações de países desenvolvidos. Diversificação global ampla em uma posição.

NASD11

Nasdaq-100 (EUA)

100 maiores empresas de tecnologia americanas. Concentração em big techs.

EIMI11

MSCI EM (emergentes)

Ações de mercados emergentes: China, Índia, Taiwan, Coreia do Sul e outros.

GOLD11

Ouro (commodity)

Exposição ao preço do ouro em dólar. Reserva de valor e proteção cambial.

XINA11

CSI 300 (China)

300 maiores empresas chinesas listadas em Xangai e Shenzhen.

A vantagem dos ETFs internacionais na B3 em relação aos BDRs individuais é a diversificação automática. Um único IVVB11 dá exposição a Apple, Microsoft, Amazon, Google, Nvidia e outras 495 empresas simultaneamente — com uma taxa de administração geralmente inferior a 0,25% ao ano.

Já os BDRs individuais fazem sentido para quem quer uma tese específica: acredita muito em uma empresa em particular e quer uma posição concentrada. Para diversificação global como estratégia de carteira, ETFs são mais adequados.


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Conta em corretora no exterior

Abrir uma conta em uma corretora internacional permite ao investidor manter patrimônio fisicamente fora do Brasil, em dólar, com acesso direto a ações, ETFs, bonds, REITs e outros ativos que não estão disponíveis na B3.

Principais opções para o investidor brasileiro

Corretora Perfil Mínimo Destaques
Interactive Brokers Internacional completa Sem mínimo Maior variedade de ativos, baixo custo, mais complexa para iniciantes
Avenue Focada em brasileiros Sem mínimo Interface em português, suporte em PT-BR, bom para iniciantes no exterior
Nomad Conta digital global Sem mínimo Conta corrente em dólar + investimentos, praticidade para remessas

Para enviar dinheiro ao exterior, o investidor realiza uma remessa cambial que é registrada no Banco Central. Não há limite legal para remessas — o limite prático é a necessidade de declarar qualquer conta no exterior com saldo acima de US$ 1.000 à Receita Federal no IRPF.

Declaração ao Banco Central (CBE) para patrimônios maiores

Investidores com ativos no exterior superiores a US$ 1.000.000 (um milhão de dólares) têm obrigação de declarar esses ativos anualmente ao Banco Central via CBE (Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior). O não cumprimento gera multas. Abaixo desse valor, a declaração é opcional mas recomendada para fins de controle patrimonial.


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Como o câmbio afeta o retorno

Ao investir no exterior, o investidor brasileiro não tem apenas exposição ao ativo escolhido — tem também exposição à variação cambial entre o real e a moeda do ativo. O câmbio pode ser o maior aliado ou o maior detrator do retorno em reais.

O retorno total em reais de um ativo internacional é o produto do retorno do ativo em moeda estrangeira multiplicado pela variação cambial. Quando o real se desvaloriza, os ativos dolarizados sobem em reais mesmo que não tenham subido em dólar. Quando o real se valoriza, o inverso ocorre.

Simulação: o mesmo ativo, dois cenários cambiais

Cenário 1 — dólar sobe

Ativo em USD+8%
USD/BRL inícioR$ 5,00
USD/BRL fimR$ 5,80
Variação câmbio+16%
Retorno em BRL +25,3%

Cenário 2 — dólar cai

Ativo em USD+8%
USD/BRL inícioR$ 5,80
USD/BRL fimR$ 5,00
Variação câmbio-13,8%
Retorno em BRL -6,7%

A simulação ilustra um ponto importante: o câmbio não é neutro. No cenário 2, o ativo subiu 8% em dólar — mas o investidor perdeu 6,7% em reais por causa da apreciação do real. Isso não significa que investir no exterior foi um erro: no longo prazo, o real historicamente se deprecia frente ao dólar, e a exposição cambial tende a beneficiar o investidor brasileiro.

O que o câmbio requer é tolerância à volatilidade de curto prazo. Em janelas de 1 a 2 anos, a variação cambial pode dominar o retorno. Em janelas de 10 anos ou mais, o retorno do ativo e a tendência de longo prazo do câmbio se tornam mais determinantes.


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Tributação: BDRs, ETFs e conta no exterior

As regras de tributação variam conforme a forma de acesso ao exterior. BDRs e ETFs listados na B3 seguem as regras de renda variável doméstica. Ativos mantidos em corretoras no exterior têm regras distintas e mais complexas — com carnê-leão, GCAP e obrigações declaratórias específicas.

Forma de acesso IR sobre ganho de capital Dividendos Isenção R$ 20k
BDRs (B3) 15% — DARF código 6015 15% retido na fonte Não
ETFs internacionais (B3) 15% — DARF código 6015 Incorporado ao ETF Não
Fundos cambiais Come-cotas + resgate regressivo Dentro do fundo Não
Conta no exterior (ações) 15% a 22,5% tabela progressiva — GCAP Carnê-leão (até 27,5%) Não

Tributação em conta no exterior: pontos críticos

  • Ganho de capital em reais. O cálculo do ganho de capital para ativos no exterior é feito em reais — usando o valor de compra e venda convertidos pela taxa de câmbio das respectivas datas. A variação cambial entra no cálculo do lucro tributável, o que pode gerar IR mesmo se o ativo não subiu em dólar.
  • Tabela progressiva de ganho de capital. Diferente de ações no Brasil (alíquota fixa de 15%), ativos no exterior seguem tabela progressiva: até R$ 5 milhões de ganho, 15%; de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões, 17,5%; de R$ 10 milhões a R$ 30 milhões, 20%; acima de R$ 30 milhões, 22,5%.
  • Carnê-leão para dividendos e juros. Rendimentos recebidos de ativos no exterior — dividendos de ações americanas, juros de bonds — devem ser informados mensalmente via carnê-leão e tributados pela tabela progressiva do IR (até 27,5%). O prazo é até o último dia útil do mês seguinte ao recebimento.
  • GCAP para apuração de ganho de capital. O programa GCAP da Receita Federal é utilizado para calcular o ganho de capital em ativos no exterior e gerar o DARF correspondente. O código de receita é diferente do usado para renda variável doméstica.

BDRs e ETFs na B3: tributação mais simples

Para investidores que preferem simplicidade tributária, BDRs e ETFs internacionais listados na B3 são vantajosos: seguem exatamente as mesmas regras de renda variável doméstica, sem carnê-leão, sem GCAP e sem conversão cambial manual no cálculo do ganho. O DARF é gerado com código 6015 pelo mesmo fluxo das ações brasileiras.


08

Quanto alocar e como estruturar

Não existe percentual universal de alocação internacional. Mas existem princípios que ajudam a definir um número adequado para cada perfil — e uma forma de estruturar a posição internacional de forma coerente com o restante da carteira.

  1. Defina o percentual com base no perfil e horizonte. Para investidores conservadores com horizonte de 5 a 10 anos, uma alocação de 10% a 15% em ETFs internacionais já oferece diversificação relevante. Para perfis moderados com horizonte de 15 anos ou mais, 20% a 35% é razoável. Perfis arrojados com horizonte longo podem ir além — especialmente se parte da renda ou dos gastos futuros está vinculada a moeda estrangeira.
  2. Comece com ETFs amplos antes de posições específicas. A sequência lógica para quem está montando exposição internacional: primeiro IVVB11 ou WRLD11 para diversificação ampla, depois eventuais posições em BDRs de empresas específicas ou ETFs temáticos. Investir em BDRs individuais antes de ter base global é concentrar risco sem ter base de diversificação.
  3. Considere a exposição cambial já existente na carteira. Alguns ativos brasileiros já têm exposição indireta ao dólar — commodities como petróleo e minério de ferro têm preço em dólar, e empresas como Vale e Petrobras têm receitas dolarizadas. Quem tem essas posições relevantes já tem alguma proteção cambial indireta.
  4. Não tente fazer market timing com câmbio. "O dólar está caro agora, vou esperar cair para investir no exterior" é uma armadilha. O câmbio é imprevisível no curto prazo. A estratégia mais eficiente é aportar regularmente em intervalos fixos (mensalmente, por exemplo) independentemente do câmbio — o que funciona como um custo médio cambial ao longo do tempo.
  5. Revise o percentual anualmente. A alocação internacional pode se deslocar conforme o câmbio oscila — se o dólar sobe muito, a parcela internacional da carteira cresce automaticamente em reais. O rebalanceamento anual garante que a alocação se mantenha próxima do alvo definido.
Perfil Alocação internacional sugerida Instrumento preferencial
Conservador (horizonte < 10 anos) 5% a 15% ETFs amplos (IVVB11, WRLD11)
Moderado (horizonte 10–20 anos) 15% a 30% ETFs amplos + eventual BDR específico
Arrojado (horizonte > 20 anos) 25% a 40% ETFs amplos + conta no exterior para patrimônio maior

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Perguntas frequentes

BDR (Brazilian Depositary Receipt) é um certificado negociado na B3 que representa ações ou ETFs de empresas estrangeiras. O investidor compra em reais sem precisar abrir conta no exterior. Uma instituição depositária compra os ativos originais no exterior e emite os certificados correspondentes na bolsa brasileira. Exemplos: AAPL34 representa ações da Apple, IVVB11 representa cotas do ETF S&P 500 da iShares.

BDR representa um ativo específico estrangeiro (uma empresa ou ETF) negociado individualmente. ETF internacional é um fundo que replica um índice global com centenas ou milhares de ativos — como o IVVB11 que replica o S&P 500. ETFs oferecem diversificação automática com custo baixo; BDRs individuais concentram risco em uma empresa específica e fazem sentido para teses de investimento direcionadas.

A venda de BDRs com lucro é tributada em 15% sobre o ganho de capital, sem a isenção de R$ 20.000 que existe para ações nacionais. Dividendos recebidos via BDR são tributados em 15% na fonte. O IR sobre ganho de capital deve ser pago via DARF (código 6015) até o último dia útil do mês seguinte à venda. Prejuízos em BDRs podem ser compensados com ganhos em BDRs e outros ativos de renda variável.

O investidor brasileiro pode acessar o exterior por quatro caminhos: (1) BDRs na B3 em reais sem burocracia cambial; (2) ETFs internacionais listados na B3 como IVVB11 e WRLD11; (3) fundos de investimento com gestão cambial ou exposição internacional; (4) conta em corretora internacional como Interactive Brokers, Avenue ou Nomad com remessa de câmbio. Para iniciantes, ETFs na B3 oferecem o melhor equilíbrio entre simplicidade e diversificação.

O retorno em reais de um investimento no exterior é o resultado do retorno do ativo em moeda estrangeira multiplicado pela variação cambial. Se o dólar subiu 16% e o ativo subiu 8%, o retorno em reais foi de aproximadamente 25%. Se o real se valorizou 14% enquanto o ativo subiu 8%, o retorno em reais foi negativo. No longo prazo, o real historicamente tende a se depreciar frente ao dólar, o que beneficia o investidor com exposição internacional.

A maioria dos planejadores sugere entre 20% e 40% para carteiras de longo prazo. Para iniciantes ou perfis conservadores, 10% a 15% em ETFs amplos já oferece diversificação relevante. O percentual ideal depende do horizonte, perfil de risco, necessidade de liquidez em reais e se o investidor já tem exposição cambial indireta (como ações de exportadoras). O importante é não fazer market timing com câmbio — aportes regulares independentemente do nível do dólar são mais eficientes.

Sim. Ativos em corretoras estrangeiras devem ser declarados na ficha Bens e Direitos do IRPF pelo valor em reais na data de aquisição. Dividendos recebidos no exterior devem ser informados mensalmente via carnê-leão com alíquota de até 27,5%. Ganhos de capital na venda são tributados pela tabela progressiva (15% a 22,5%) via GCAP. BDRs e ETFs listados na B3 seguem as regras de renda variável doméstica — declaração mais simples, sem carnê-leão e sem GCAP.

O GCAP é o programa da Receita Federal para calcular o IR sobre ganho de capital de ativos no exterior mantidos em corretoras estrangeiras. Deve ser usado ao vender ações, ETFs ou outros ativos diretamente de uma conta no exterior. Para BDRs e ETFs listados na B3, o GCAP não é necessário — o IR segue as regras de renda variável doméstica com DARF código 6015, como qualquer ação brasileira.